Minha Viagem à África do Sul: Afropunk, Apartheid e heranças do regime segregacionista

Olaaaar mygles!!!

Os clôguidores que acompanham meu Instagram e meus stories já estão ligados que eu estive na África do Sul em dezembro/janeiro, mais especificamente em Joanesburgo, para passar o réveillon no primeiro Afropunk realizado na África (quer saber tudo sobre o Afropunk? Dá uma olhada nesse post closeyro aqui)!

Ah, já tem vídeo no meu canal do bapho todo no festival:

A experiência foi transformadora! Como seu sempre digo, o Afropunk é muito mais que um festival: é sobre pertencimento, representatividade, empoderamento (e sobre dar clôclô, é clary kkk). E que simbólica a realização dessa primeira edição na África, berço da nossa história e da nossa ancestralidade.

Nesses dias de viagem, eu aproveitei não só pra curtir, mas pra mergulhar na história do Apartheid e conhecer mais de Joanesburgo, onde rolou o Afropunk. E querya falar um pouco dessa fase terrível que ainda ecoa pelas ruas desse país e pelas narrativas de quem vive lá até os dias de hoje. Sim mygles, precisamos falar de Apartheid!

Como vocês devem saber, o Apartheid foi um regime de segregação racial que aconteceu na África do Sul durante uma grande parte do século XX. Esse regime passou a vigorar por lá depois das eleições gerais de 1948 e foi comandado pelo Partido Nacional, defendendo a idea de “supremacia branca” e aplicando diversas leis separatistas no país. Inclusive o nome “Apartheid” significa algo como “separação” em africâner, língua baseada no neerlândes que se desenvolveu durante o período em que a Holanda colonizou parte da África.

Mygles, é nojento e inacreditável tudo que aconteceu por lá quando o regime separatista entrou em vigor. Para dar alguns exemplos, os cidadãos passaram a ser classificados em quatro raças oficiais: bantu (os africanos negros), mestiços, brancos e asiáticos (de origem indiana e paquistanesa). O casamento interracial foi proibido, brancos e negros foram proibidos de manter relações sexuais com a Lei da Imoralidade, locais e equipamentos públicos eram segregados, negros eram obrigados a andar com cadernetas de identidade que deveriam ser apresentadas sempre que exigido, correndo o risco de prisão, leis agrárias deram aos brancos, muito inferiores em população, a maioria das terras férteis e recursos naturais do país, organizações de negros (como o Partido Nacional Africano-CNA) foram banidas e negros foram impedidos de votar.

A entrada do Museu do Apartheid traz um pouco da experiência segregacionista.

O povo passou a ser dividido fisicamente, com a definição de bairros, áreas de residência específicas. Imaginem que os negros eram deportados para territórios criados com o objetivo de separar as raças! Dizia-se que essas regiões tinham certa autonomia e governos locais, mas a verdade é que a polícia estava pronta a fazer uma visita sempre que o governo do país não concordava com alguma decisão.  As manifestações, por exemplo, se tornavam em um mar de sangue…

Lugar de resistência – S O W E T O

Durante a minha estadia em Joanesburgo eu passei um dia inteirinho dando rolê por Soweto, bairro que foi transformado em gueto negro durante o Apartheid.

Soweto – SOuth WEstern TOwnship – esse bairro que durante o Apartheid, com sua minoria branca (20%) dominou a maioria (80% negra). Durante o regime os negros não tinham energia, água potável, educação e atendimento hospitalar. Esse lugar foi construído para afastar todos eles de sua própria terra, para destruí-los. Gueto, lugar perigoso e sujo… O soweto significava isso e muito mais para os opressores. A exploração do ouro veio para destruir toda a ancestralidade e cultura da África do Sul. Muitos muitos muitos foram mortos por aqui, e é muito triste ouvir as histórias, mas é muito bom saber que continuam unidos e constantes. Mesmo que até agora os resquícios desse regime estejam vivos, haverá sempre luta. O Soweto hoje é um bairro onde as pessoas que vivem aqui conseguem VIVER. Muito feliz pelo dia que tive, pelas histórias que ouvi e pelo aprendizado que é infinito… O ser humano é capaz de fazer qualquer coisa e isso é muito assustador. Façam o bem, Deus é o universo.

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Soweto é um lugar muito simbólico da história desse país que até hoje carrega as incongruências de um processo de término do Apartheid que não estancou totalmente as desigualdades, muito menos libertou os negros economicamente. O bairro é gigantesco, as taxas de violência e de pobreza ainda são altas e, ao mesmo tempo, a riqueza cultural e identitária pode ser vista por todos os lados. Mas mesmo com esses fatos, achei curioso que alguns amigos que fiz na viagem disseram que o bairro está num momento de gentrificação e há casas no valor de até 500 mil rands (moeda local).

S O W E T O 🖤

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Nelson Mandela morou lá quando foi libertady em 1990 e sua casa virou um Museu. Desmond Tutu, arcebispo que ao lado de Mandela foi uma das figuras centrais do movimento contra o Apartheid e que também foi premiado com o Prêmio Nobel da Paz, tem uma casa lá até hoje, na mesma rua. Também por esses motivos,  essa é a rua mais bombada do bairro, com muitas opções de souvenirs e restaurantes.

Foi lá que começou uma das maiores revoltas internas do regime segregacionista, quando o governo resolveu adotar o africâner como língua oficial nas escolas, língua ligada aos opressores. Milhares de estudantes tomaram as ruas em 16 de junho de 1976 e a manifestação, que começou pacífica, terminou com várias mortes. Hector Pieterson, um menino de 12 anos, foi o primeiro a ser morto pela polícia. Há um monumento em sua homenagem e o dia 16 passou a ser conhecido como Dia da Juventude. A partir disso, mais e mais revoltas internas foram pipocando, enquanto cada vez mais pressão externa acontecia pelo fim do Apartheid.

E não podemos deixar de falar de Mandela, o Madiba. Talvez o maior nome da luta contra o Apartheid na África do Sul, Mandela ficou conhecido no mundo todo por um discurso muito forte que fez pela igualdade, pela humanidade e cheio de esperança. Desde a faculdade ele se engajou no CNA. Montou o primeiro escritório liderado por negros da África do Sul. Mandela fundou o “Umkhonto we Sizwe” (Lança da Nação), ala armada do congresso nacional africano, e foi condenado à prisão perpétua por suas ações políticas.

Ele ficou preso durante 27 anos! Foi libertado em fevereiro de 1990, conquistou o prêmio Nobel da Paz em 1993 e em 94 foi eleito o presidente do país, nas primeiras eleições multirraciais após o final do regime segregacionista que durou mais de 40 anos. Madiba é um ícone da luta pela igualdade que segue até hoje sendo lembrado e reverenciado.

O Apartheid acabou, mas é importante ressaltar que o regime só teve fim porque o país sofreu sérias pressões externas e sanções econômicas de outros países, enquanto enfrentava revoltas cada vez mais violentas internamente. Além disso, como eu falei pra vocês, a libertação não aconteceu também em termos financeiros, o que faz com que um simples passeio pelas ruas de Joanesburgo siga deixando claras as marcas dessa história e a segregação velada que segue acontecendo. Como no Brasil pós escravidão, os negros de lá seguem enfrentando várias questões em termos de pertencimento, apagamento histórico, falta de oportunidades e poder econômico.

A herança do racismo segue forte, e é por isso que a gente vai falar mais desse assunto mais pra frente!

Quem não conseguiu acompanhar meus stories, eles ainda estão salvos no meu perfil.

E se forem pra Joburg NÃO DEIXEM DE CONHECER O MUSEU DO APARTHEID.

:)))

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